Mostrando postagens com marcador Maccabeo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Maccabeo. Mostrar todas as postagens

Maccabeo parte V - Alfons Martin

. sábado, 24 de maio de 2008


A visão da cidade de Valência confortara seu peito, depois de tantas angustias Cândido estava próximo de seu objetivo.

- Mas que bela cidade – exclama Cândido ao andar por suas ruas, o comércio ainda prospera, mesmo com a peste, algumas pessoas ainda não haviam perdido as esperanças, mas era fácil se notar que as mãos do Santo Ofício estavam agindo por toda a cidade, pois os cidadãos ao ver Cândido em suas vestes, tinham reações de medo, espanto, felicidade, podendo-se notar que muito realmente tinham fé na Santa Igreja.

Após uma ou duas horas de viagem, Cândido está no centro da cidade, e bem próximo da residência de Martin, com um pouco de dificuldade chega a um sobrado um pouco deteriorado, a ordem de investigação que possuía o levava até aquele local, Cândido para sua carroça, arruma sua roupa, e ao tentar bater na porta do sobrado, nota que a mesma já se encontra aberta, e adentra, logo após sua entrada, nota que alguém tenta escapar pelo fundo, nisso Cândido corre até o fundo, pois pode ser Martin, e se o mesmo fugir, tudo isso que acontecera fora em vão.

-NÃO OUSES FUGIR! – Exclama Cândido com uma voz autoritária, e a figura que tentava abrir a porta dos fundos para, levanta as mãos, e vira em direção de Cândido, a figura é um homem de aproximadamente 36 anos, um pouco acima do peso, sua pele é pálida, como se nunca tivesse recebido a luz do sol, seus cabelos são é um pouco comprido demais para o padrão espanhol da época, - Calma, eu não tentava fugir – Exclama o homem.

- Você é Alfons Martin? – interroga Cândido.

- Sim, sou eu, em nome do azar, você veio aqui para me queimar?

Nesse momento, Cândido remove a máscara do fato, olha bem para Martin e diz:

- Não, não sou do Santo Ofício, mas vim até aqui para salva-lo, pois o destino da fogueira já fora escrito pelos padres, se permancer aqui não sobreviverá.

- Fugir? Como vou fugir? E aonde o senhor conseguiu meu nome? Porque me salvaria? Sou pobre, não posso lhe dar ouro, não tenho nada a lhe oferecer além desse sobrado velho, o senhor seria um Santo? – pergunta Martin, ainda estupefato pela declaração daquele homem desconhecido.

- Na verdade, o senhor é muito útil para mim, -Diz Cândido, que se senta em um banco de madeira que se encontrava próximo da porta – O senhor tem o conhecimento de latim antigo, assim como os fundamentos da cura que era empregada no glorioso Império dos César não é mesmo?

- Eu acho que sim, conheço medicina, mas nunca pude ler sobre a cura romana. A igreja confiscou todos os livros... – responde Martin, mostrando um profundo sentimento de pesar.

Cândido nesse momento se levanta, aponta para a direção do carroção e diz:

- Isso não é o problema, arrume suas provisões, vamos embora daqui nesse momento.

Sem responder nada, Martin pega alguns livros, roupas, um cantil de água e sobe no carroção, nesse momento o mesmo se surpreende com a quantidade de livros que existia ali, nunca tinha visto tantos juntos, Cândido sem dizer nada, simplesmente parte com a carroça, saindo de Valencia, quando a cidade começa a sumir no horizonte, Cândido pergunta:

- Aonde podemos ir?

-Grécia! – exclama Martin animadamente – Lá estaremos salvos da igreja e com esses livros... Com esses livros podemos curar muitos males...

(Interrompendo o comentário) – Poderia curar a Praga? – pergunta Cândido.

- Podemos tentar, eu tenho fé que conseguiremos...

Cândido solta um sorriso de satisfação, é possível que tudo isso venha a salvar muitas vidas, mas uma imagem tira Cândido de seus pensamentos, alguns cavaleiros se aproximam em velocidade da carroça, e antes que Cândido pudesse vestir o fato novamente, eles o abordam.

Im nomine patris, Miserere nobis.

Cândido ao ver os homens da igreja a sua frente, alguns deles se armando, pensa em dialogar, mas ao lembrar de tudo o que viu até naquele momento, de nada iria adiantar, e é notável que aqueles quatro soldados que acompanhavam o padre eram recrutas, sim, ele poderia ter uma chance.

- O meu Deus, eles nos pegaram Cândido, e agora, Pai amado, me proteja dessa situação...

- CALE-SE! – Exclama Cândido, nesse momento, um dos soldados desce do cavalo, e com espada em punho se aproxima da carroça, Cândido em uma ação de extrema eficiência, saca a sua espada, pula da carroça com um golpe vertical, que acerta precisamente o crânio do jovem soldado, que cai ao chão em um borbulhar de sangue.

Nesse momento, o padre recua, diz aos soldados que o matem, pois aquele blasfemador só poderia ter um pacto com o demônio para agira daquele modo.

Ao ouvir isso, Cândido exclama:

- Não é pacto com ninguém senhor, é treinamento militar, seus recrutas não têm chances, nos deixem partir que ninguém sofrerá.

Mas é em vão, mais um dos soldados parte em direção a Cândido, e com um golpe aberto o ataca golpe que fora facilmente aparado por Cândido, que por sua vez enterra a espada até o estomago do jovem, um dos soldados, ao observar Cândido cai ao chão, tenta levantar e não consegue tempo para Cândido partir para cima do outro soldado, mas aquele soldado que se encontrava ao chão, com muita dificuldade retira seu elmo e grita:

- POR FAVOR, PARE PAI!

Como Cândido não reconheceria aquela voz, era de seu primogênito, Caio se encontrava ai, e por pouco Cândido não o matara. Após isso, Cândido solta sua espada ao chão, ele não poderia lutar contra seu próprio filho, isso era demais para ele, e aos prantos e soluços é rendido por outro guarda, assim como Martin. Cândido pergunta a Caio o porquê daquilo, Caio diz ao pai que o mesmo era um pecador, que jogara a família a vergonha...

Cândido, em uma última frase antes de se calar diz:

- Mas isso tudo fora por você...

Após isso, o padre coloca Cândido nas correntes, um dos soldados assume a carroça, colocam Martin nas correntes também, ambos recebem golpes na nuca para perderem a consciência, a ultima visão que Cândido tem naquele momento é de seu filho o observando com os olhos marejados, mostrando-se envergonhado pela situação do pai.


Rodrigo, que inicialmente pede desculpas pela demora para postar a 5ª parte, assim como possíveis erros de concordância no texto, problemas atribuídos a falta de tempo.
Créditos das imagens: Hibbary e Zianthia ambas imagens extraídas do deviantart

Maccabeo parte IV - Longo caminho

. segunda-feira, 28 de abril de 2008

Commoditas omnis fert sua incommoda.
(Em toda parte existe o mau caminho)


A lista possuía muitos nomes, a maioria dos nomes ali citados estava sob ordem de investigação, alguns por bruxaria, outros por falta de apoio a Santa Igreja, alguns por libertinagem, blasfêmias...

Mas um dos nomes que ali constavam seria investigado por prática ilegal de “Xamanismo” e leitura ilegal de livros pagãos, seu nome era Alfons Martim, e residia na região de Valencia.

- Ele pode fazer bom proveito dos meus livros! – exclama Cândido, e o mesmo segue viagem, a quantidade de mantimentos que lhe restara é o suficiente para mais ou menos cinco dias de viagem, tempo mais que o suficiente para se distanciar do Bispo Bartolomeu e seus homens.

Em sua saída de Veneza, Cândido nota com evidencia a situação lastimável que a cidade e sua população se encontram, ali há muitas casas abandonadas, o cheiro de podridão é sentido em toda região, em qualquer ponto da cidade é possível se ouvir lamentos desesperados, os estabelecimentos de libertinagem se encontram lotados, pessoas doentes e maltrapilhas encontram-se a andar sem rumo pelas vielas sujas, até mesmo as fontes e mercados, que sempre trouxe muito orgulham Veneza, se encontram sujos e abandonados, a região do cais, assim como as travessas feitas de gôndolas já não são mais feitas, pois se teme a água, assim como os corpos que ali são despejados.

Mas com muito pesar Cândido abandona a cidade, depois de se afastar consideravelmente da cidade, Cândido retira a máscara do Fato, Aquilo o incomodava deveras, parecia que o mataria sufocado, a viagem se inicia tranqüila, pela manhã Cândido para a um lago, lava suas vestes e se banha, pois há dias que não faz o mesmo, depois de se alimentar volta a seu carroção, toma um de seus livros e volta ao seu caminho, antes que o sol daquele dia tivesse desaparecido por completo, Cândido avista um cavalo vindo, e pelo porte do animal e de seu cavaleiro, são pessoas comuns, ao se aproximar Cândido reconhece Benito, um fazendeiro vizinho.

- Que Deus lhe abençoe! – exclama Cândido – Como está meu amigo?

Benito para seu cavalo, olha bem para Cândido e seu carroção e diz:

- Maldição homem! Nós da vila achávamos que tinha morrido, ou fugido com uma rapariga qualquer, faz mais de semanas que partira de casa...

- Estava em viagens meu amigo, mais quais são as novidades? – pergunta Cândido animadamente.

- Bem Maccabeo, quando estava fora o exercito do ofício fora a sua casa, pois seu primogênito já está na fase se ir para a armada, como você não estava lá...

- MALDIÇÃO! AQUELES VERMES LEVARAM O CAIO? –Exclama Cândido extremamente consternado, sem notar a blasfêmia que acaba de dizer.

- Cuidado com a boca homem, se um deles ouve você falar isso, irá queimar na fogueira.

Depois da fala de Benito, Cândido tenta se acalmar, formula uma desculpa tola para seguir viagem, após um “Adeus” um tanto desconfortável, Cândido prossegue, veste o Fato novamente, sua mente está sobrecarregada demais para ler.

Passam-se horas de viagem, dias, semanas, um mês, dois, durante esse tempo tudo o que Cândido pudera presenciar foram cenas de dor e martírio, vilarejos inteiros abandonados, cemitérios superlotados, fome, crime.

Mas o que realmente incomodava Cândido é o fato do dito “Santo Ofício” nunca cessar suas atividades, a igreja não oferecia o conforto nas palavras de Deus, oferecia festivais de crueldade e sadismo para um público moribundo que sempre se deleitava com as cenas de dor alheia, e quanto mais se aproximava do reino da Espanha, mais essas cenas se tornavam corriqueiras.

Perto de um vilarejo de nome Ashford, pois ali um senhor do mesmo nome era uma espécie de “governador”, aparentemente os camponeses dali viviam bem, Cândido passara por ali para comprar mais mantimentos. Mas quando passava por ali, notara uma grande movimentação de homens trajando vestes negras, aqueles eram inquisidores.

Cândido tenta mudar a rota, mais um dos Acólitos que ali se encontram vem à direção de Cândido, pega seu cavalo pelas rédeas, agradece a Deus por aquele “homem de Deus” ter chegado a salvo, Cândido pergunta sobre o que o Ofício faz ali, e o jovem responde:

- O senhor está de passagem não é mesmo? Bem esse senhor Ashford vive sem a benção de Deus, não arca com o dízimo, não obriga os camponeses irem à missa, nem a batizar seus filhos, está trazendo a influencia do demônio a este povo inocente.

Cândido olha ao seu redor, e tudo o que pode ver é fartura, pelo que parece, ninguém ali passa fome, também vê que estão a erguer uma pira, parece que o julgamento foi rápido.

- Mas o que posso ver aqui é fartura, esse homem não é bom para seu povo? – interroga Cândido.

- Utile quid nobis novit Deus omnibus horis*. – o jovem acólito diz apenas essas palavras.

Cândido abaixa seu rosto, ao ver que está de mãos atadas em relação ao destino daquele homem, à frente os homens da inquisição trazem um homem alto, vestido com um sabatino, de constituição saudável, tenho em volta de 40 anos, cabelos e cavanhaque grisalho, com um profundo semblante de pesar, o mesmo é amarrado à tora de madeira, algumas pessoas começam a se aproximar, a esposa do homem encontra-se aos prantos, ali se encontram alguns padres, fazendeiros locais e suas esposas, a eles são servidos refrescos, a população local se encontram divididos, alguns estão a falar mal e arremessar pedras, outros estão a lamentar, após alguns minutos, um dos padres joga uma tocha a madeira seca abaixo da pira, que começa a pegar fogo rapidamente, a senhora que estava aos prantos desmaia, enquanto os fazendeiros vão ao delírio, ao ver essa cena, Cândido arranca com sua carroça, quase derrubando o jovem acólito, aquilo era absurdo demais para a concepção de Cândido, que neste momento desejava a pior doença possível para o Papa Clemente.

Cândido com os olhos marejados de lagrimas segue viagem, dessa vez sem encontros desagradáveis, depois de mais alguns dias de viagem, acaba por entrar no território espanhol, e visivelmente nota o medo que suas vestes trazem a população, e isso era extremamente compreensível, pois boatos diziam que as fogueiras da Espanha queimam muito mais que qualquer outra, a cidade de Valencia se encontrava próxima, e isso era bom, pois o cansaço físico e psicológico quase o vencia, sua preocupação com os filhos era como uma flecha atravessada em seu pescoço, a casa momento se amaldiçoava por sua incompetência e imaturidade, como poderia abandonar seus filhos para buscar o improvável?

* Deus sabe o que faz.




Rodrigo, que está tentando sobreviver diante de uma torrente interminável de provas.

Maccabeo Parte III - Estruturas apodrecidas

. segunda-feira, 21 de abril de 2008



Há duas coisas infinitas:
O Universo e a tolice dos Homens

Albert Einstein

Segue a terceira parte do Conto de Maccabeo, espero que gostem


A viagem seguiu sem mais nenhum encontro, o Fato de proteção encontrava-se em bom estado, nem se notava a perfuração entre o inicio do pescoço e fim da caixa torácica, Cândido sente um ligeiro mal-estar, não que ele nunca tenha matado alguém, pois já fora do exercito, mas mesmo assim, matar aquele jovem acabou por gerar um grande arrependimento em sua alma.

Ao amanhecer, a cidade de Veneza já podia ser vista no horizonte, Cândido decide chegar à cidade ao entrar da noite, para assim chamar menos atenção, logo às portas da cidade sente-se um forte mau-cheiro, parece que não se enterra mais os mortos em Veneza. Ao passar por alguns guardas, Cândido faz o comprimento que o padre lhe tinha feito:

- Dominous Vobiscum!

Os guardas em bom latim o cumprimentam, o que dá um pouco de animo a Cândido, pois parece que o disfarce lhe vai cair bem, ou pelo menos espera. Ao chegar próximo ao centro da cidade, é notada uma movimentação e fumaça, ao aproximar, Cândido repara com apreensão que o Santo Ofício está a realizar seu trabalho, a caça a hereges...

- Olá Caro Rimbaud, como fora a sua viagem? – pergunta um dos padres, que ao notar o aproximamento da carroça, vai a sua direção – Demoraste a chegar, já estávamos ficando preocupados, vejo que apreendeste material maligno...

Cândido, sem saber bem o que fazer tenta responder:

- É, que... Bem, foi mostrado a mim o esconderijo de um bruxo, fui chegar e ele reagiu por sorte me salvei, e esse é o material dele... Quem está a ser punido...

- Que voz é essa Rimbaud? Está resfriado? – Caçoa um dos acompanhantes do padre – o padre que fizera a pergunta a Cândido olha para ele com um olhar de surpreso, e responde sua pergunte:

- A sim, o que você vê ai é um pecadora, mulher sem pudor, estava a se deitar com um judeu, mesmo sendo batizada pelo espírito santo que reside na nossa fé, isso é pecado, o judeu já fora queimado mais cedo, agora foi à vez dela...

Cândido sente um forte repudio as palavras daquele homem de constituição baixa e obesa, apenas um porco como esse podia dizer palavras como essa, ele olha para a pira que está a ser apagada e vê com tristeza o corpo carbonizado da mulher ainda soltando fumaça, quando está a ver a cena, ouve uma conversa paralela, aonde duas donas de casa comentam que o numero de mortos é assustador, que até mesmo os coveiros já faleceram, e nem enterrar os mortos eles podem.

Cândido é mais uma vez surpreendido pelo padre obeso, que diz a ele que o Bispo Bartolomeu quer vê-lo, passar uma lista de novos hereges que deverão ser avaliados, Cândido evitando falar, apenas balança a cabeça, olha aquelas pessoas que alegremente vêem o corpo da dama ser cremado, abaixa a cabeça, e segue o caminho que lhe foi indicado, em seu trajeto pelas ruas da cidade, nota que a cada 300 metros, estava uma pilha de corpos, depositados em carroções, muitos deles em avançado estado de putrefação, em meio à imundice de resíduos e ratos.

- Isso é culpa desses ignorantes de Deus, esbraveja Cândido, após alguns segundos em silêncio, agradece a sua própria sorte por ter dito tamanha tolice longe de qualquer servo de Deus, como havia pedido as indicações de onde estava hospedado o bispo, era em uma casa luxuosa para época, que fora tomada de um fidalgo que a igreja havia considerado herege, pois o mesmo possuía olhos de um verde muito claro, além de que o mesmo não achava higiênico consumir carne de porcos, o Santo Ofício usou ambos os argumentos contra ele, pois seus olhos mostravam a essência demoníaca, e este não consumia carne, mesmo com a explicação de Jesus que não existira animal impuro ou que não deveria ser consumido, logo o pobre Fidalgo fora enforcado e seus bens confiscados para o Bispo.

Cândido entra no recinto ainda com suas vestes de proteção, quando o guarda indaga o porquê daquilo, Cândido responde que como ele estivera em contato com os doentes, era mais seguro para a saúde do Bispo, logo encontra o bispo sentado a uma farta mesa, aonde é servido comida nutritiva, que por sinal está em falta em toda Veneza.

- Sente-se a mesa meu rapaz! – diz o bispo fazendo gestos lentos e desengonçados com os braços – prove dessa comida, pois está muito boa!

O bispo é um homem magro, de altura mediana, com idade próxima de 60, seu olhar é profundo, como de uma águia.

- Desculpe-me, estou sem fome – Diz Cândido evitando falar – O bispo nota a diferença da voz, e continua:

- Como sem fome? Você é apenas um jovem, e totalmente fiel à missão de Deus, olha, aqui está uma lista com o nome de possíveis hereges.

O bispo, que encara Cândido com um olhar extremamente atento, tira um rolo de papel lacrado, e o põe sobre a mesa, e com uma voz fria, pergunta a Cândido:

- Como fora sua última missão? Vi que chegaste com um carroção, o que seria aquilo?

- Apenas material de estudo que obtive de um bruxo vossa excelência, desculpe-me, mas tenho que me retirar... – Diz Cândido notando que o bispo está a agir de uma maneira diferente, Cândido vira de costas e começa seu caminho em direção à porta, nunca uma distancia tão pequena parecia tão longínqua – O bispo apenas diz para Deus acompanhar em sua missão, se levanta e cochicha algo com um dos guardas, e senta-se novamente.

Cândido apenas se sente aliviado após sentar em seu carroção, suas mãos tremem e sua boca está seca, mas pelo menos parece que está a salvo, dá sinal para os cavalos começarem seu caminho, e quando abre sua lista, imediatamente um nome lhe chama atenção, um homem que poderia ajudá-lo, pois seu crime é exatamente o que Cândido precisa, e tem os meios de chegar a ele...


Creditos de imagem:


Plague medic by luciferownsme - Deviantart

Artista e nome da obra desconhecidos.


Rodrigo, que pede aos que lerem essa parte comentem, mesmo que for para xingar =]


Maccabeo - Parte II

. quarta-feira, 16 de abril de 2008

Aqui segue a Segunda parte do Conto, espero que apreciem.


Após alimentar seus dois cavalos, arrumar os livros e mantimentos no carroção, Cândido olha uma última vez para o tumulo de Gladys, fecha os olhos por um momento, quando os abre novamente, olha suas terras, as folhas das arvores já se encontram queimadas pelo frio, e a cair rapidamente, olha os moinhos, e parte ao por do sol.

Durante a noite, Cândido apenas consegue questionar a si mesmo se aquilo foi uma decisão sábia, abandonar seus filhos e sua vida, abrir mão de uma vida confortável por um objetivo que pode ser inútil, mas bem, ele iria fazer isso por Gladys e por todas as pessoas que talvez possa ajudar.

Ao amanhecer, Cândido pega seu cantil, bebe um pouco de água, procura uma fruta qualquer, e continua seu caminho, após algumas horas, surge uma silhueta de uma pessoa a frente da estrada, alguém que vem em sua direção.

- Companhia pode ser agradável! Exclama Cândido, que aumenta a velocidade dos cavalos em direção daquela silhueta, mas logo a felicidade de Cândido se torna espanto, pois aquele que vem a frente usa um fato de proteção à praga...

-Maldição! Se for um padre, tomara que o mesmo passe direto, que não me note! Murmura Cândido, se ele chegar a olhar meus livros, estarei morto!

O homem se trajes negros, ao aproximar-se da carroça, levanta sua mão direita e diz:

- Dominus Vobiscum!¹

Cândido se desespera e amaldiçoa seu azar, aquele que esta em sua frente é um padre, e a julgar por seus equipamentos em seu traje, trata-se se um inquisidor!

O homem diz em um italiano bastante carregado de sotaque, uma mistura de latim com os idiomas falados ao norte.

- Meu companheiro, poderia por gentileza me oferecer uma carona, já é quase hora do almoço e estou atrasado, preciso chegar a Veneza antes do anoitecer!

Cândido, com uma voz tremula, diz ao homem que seria um prazer sua companhia, pois um homem de Deus traria paz à viagem.

O homem de trajes negros senta ao lado de Cândido, e começam a conversar sobre filosofia, Cândido se esquiva ao máximo possível de assuntos relacionados à metafísica ou mesmo a praga, mas, depois de algumas horas de viagem, o padre se mostra cada vez mais curioso em relação ao que Cândido carregava no carroção, e com a desculpa de pegar água, abre as cortinas e vê os livros que Cândido carregara, nesse momento, Cândido como que por instinto, pega sua gladius, e quando o padre volta para falar com Cândido, este trespassa a lamina no pescoço do padre, este por sua vez, tenta inutilmente levar a mão a lamina, mas antes que o faça, tomba em alguns espasmos e falece.

- Perdoe-me, mas acho que isso foi necessário, diz Cândido ao remover a máscara que cobria o rosto do inquisidor, e com espanto vê que aquele que acabara de assassinar não tinha mais de 18 anos, ele passa a mãos nos cabelos dourados que o jovem possuía, provavelmente era dos reinos germanos, pobre alma...

-Timeo hominem unius libri², murmura Cândido, ao imaginar o que poderia ser feito a aquele cadáver, até que um súbito pensamento relampeja à mente de Cândido – Suas vestes! Com elas não poderei temer os outros inquisidores!

Cândido remove o Fato do jovem rapaz, veste o corpo com suas roupas – Mas e alguém encontra-lo aqui, pode ser um problema, Cândido nota um lado a sua esquerda, lá ele poderia lavar o Fato do padre, para remover o sangue, e este lago poderia servir de tumulo para o jovem rapaz.

Cândido abre a região torácica do rapaz, e mesmo sentindo náuseas, ali insere algumas pedras, após isso, costura o tórax do rapaz, leva-o para o meio do lago, e o deixa afundar, pois com o peso das pedras ele não irá boiar, ficara ao fundo do lago sem eu eterno repouso. Ainda um pouco nauseado, Cândido veste o Fato, e segue viagem...


¹: “Deus esteja convosco”

²: “Deve-se temer não quem lê muitos livros, mas quem lê muito um só livro".



Rodrigo, que está implorando para o tempo continuar "de temperatura agradável".


Maccabeo - Prelúdio.

. domingo, 13 de abril de 2008


Era outono de 1348 da era cristã.

Na época em que a peste negra assolava a Europa, matando mais de um terço da sua população até o ano de 1340.

Cândido Maccabeo era um promissor dono de terras em uma região de Veneza, vivia de maneira confortável para os padrões da época, pois mesmo que suas terras não produzissem lucros, possuía dois moinhos que podia arrendar aos outros senhores das redondezas, Cândido vinha de uma linhagem de ex-patrícios romanos, e sua família conseguira manter muito de sua cultura, mesmo com a intervenção que a igreja católica, pois seus antepassados sempre deram mais valor à ciência, pois a religião sempre cegou a razão.

No verão de 1348, uma parte considerável da população de Veneza sucumbira à peste, Cândido tinha o conhecimento que aquilo que assolava os reinos se tratava de uma doença, não de uma punição divina como anunciava a igreja, e encarava com ódio as medidas tomadas pelo Santo ofício, que condenaram muitos “culpados” a fogueira, alguns padres gritavam:

- É culpa dos pagãos, pois eles trazem a semente do demônio as nossas cidades!

Outros afirmavam:

- É culpa dos judeus, eles mataram o Messias e trouxeram a desgraça para nosso mundo, apenas quando todos perecerem poderemos viver no paraíso!

Ou seja, qualquer pessoa que fosse taxada como “bruxo”, “adorador do demônio” ou mesmo venha de uma linhagem judia eram condenados à fogueira, e isso de um modo cruel, apaziguava os ânimos da população que esperava uma salvação da “punição divina”.

Cândido possuía dois filhos, Marco, o mais novo, já acompanhara três verões desde que fora concebido, Caio o mais velho, que iria fazer 15 anos, e já recebia certo treinamento militar, a esposa de Cândido se chamava Gladys, mulher doce de constituição fraca.

Já haviam sido reportados 30 casos da peste nas propriedades próximas as terras de Cândido.

Cândido, e, após uma viagem a Veneza para comprar mantimentos, Gladys se queixou de febre, dores de cabeça, com o passar de horas, um médico Judeu de nome Samuel, constatou que Gladys estaria com a praga, Cândido e seus filhos puderam apenas acompanhar os dois dias que a praga precisou para ceifar a vida de Gladys.

Após a morte de Gladys, Cândido entrara em profunda depressão, culpou a si mesmo, ao Deus dos católicos, culpou a sua fraqueza, e prometera que iria achar um meio de salvar seus filhos, e aqueles que nada podiam fazer diante do descaso da igreja.

Cândido deixou seus filhos sobre os cuidados de sua cunhada, voltou para suas terras e recolheu todos os livros que ali estavam escondidos, mas infelizmente ele não sabia muito bem todos aqueles termos, então, decidiu a sair em busca de alguém que pudesse ajudá-lo, pois para Cândido, a medicina romana poderia dar uma solução aquela doença, e ele descobriria, mesmo correndo o risco de ser condenado como herege, logo, Cândido montara uma carroça e partiria para Veneza, acharia alguém mais escolado que ele, e tentaria achar uma solução, nem que tivesse de matar Clemente VI, nem que tivesse que abalar as estruturas da igreja em si!

Imagens usadas:
1ª: representação do cavaleiro da peste. autor desconhecido
2ª:A peste em Ashdod. Nicolas Pousin. 1630.

Rodrigo, que espera que alguem leia o conto para ter animo de publicar o resto.


 

^