A visão da cidade de Valência confortara seu peito, depois de tantas angustias Cândido estava próximo de seu objetivo.
- Mas que bela cidade – exclama Cândido ao andar por suas ruas, o comércio ainda prospera, mesmo com a peste, algumas pessoas ainda não haviam perdido as esperanças, mas era fácil se notar que as mãos do Santo Ofício estavam agindo por toda a cidade, pois os cidadãos ao ver Cândido em suas vestes, tinham reações de medo, espanto, felicidade, podendo-se notar que muito realmente tinham fé na Santa Igreja.
Após uma ou duas horas de viagem, Cândido está no centro da cidade, e bem próximo da residência de Martin, com um pouco de dificuldade chega a um sobrado um pouco deteriorado, a ordem de investigação que possuía o levava até aquele local, Cândido para sua carroça, arruma sua roupa, e ao tentar bater na porta do sobrado, nota que a mesma já se encontra aberta, e adentra, logo após sua entrada, nota que alguém tenta escapar pelo fundo, nisso Cândido corre até o fundo, pois pode ser Martin, e se o mesmo fugir, tudo isso que acontecera fora em vão.
-NÃO OUSES FUGIR! – Exclama Cândido com uma voz autoritária, e a figura que tentava abrir a porta dos fundos para, levanta as mãos, e vira em direção de Cândido, a figura é um homem de aproximadamente 36 anos, um pouco acima do peso, sua pele é pálida, como se nunca tivesse recebido a luz do sol, seus cabelos são é um pouco comprido demais para o padrão espanhol da época, - Calma, eu não tentava fugir – Exclama o homem.
- Você é Alfons Martin? – interroga Cândido.
- Sim, sou eu, em nome do azar, você veio aqui para me queimar?
Nesse momento, Cândido remove a máscara do fato, olha bem para Martin e diz:
- Não, não sou do Santo Ofício, mas vim até aqui para salva-lo, pois o destino da fogueira já fora escrito pelos padres, se permancer aqui não sobreviverá.
- Fugir? Como vou fugir? E aonde o senhor conseguiu meu nome? Porque me salvaria? Sou pobre, não posso lhe dar ouro, não tenho nada a lhe oferecer além desse sobrado velho, o senhor seria um Santo? – pergunta Martin, ainda estupefato pela declaração daquele homem desconhecido.
- Na verdade, o senhor é muito útil para mim, -Diz Cândido, que se senta em um banco de madeira que se encontrava próximo da porta – O senhor tem o conhecimento de latim antigo, assim como os fundamentos da cura que era empregada no glorioso Império dos César não é mesmo?
- Eu acho que sim, conheço medicina, mas nunca pude ler sobre a cura romana. A igreja confiscou todos os livros... – responde Martin, mostrando um profundo sentimento de pesar.
Cândido nesse momento se levanta, aponta para a direção do carroção e diz:
- Isso não é o problema, arrume suas provisões, vamos embora daqui nesse momento.
Sem responder nada, Martin pega alguns livros, roupas, um cantil de água e sobe no carroção, nesse momento o mesmo se surpreende com a quantidade de livros que existia ali, nunca tinha visto tantos juntos, Cândido sem dizer nada, simplesmente parte com a carroça, saindo de Valencia, quando a cidade começa a sumir no horizonte, Cândido pergunta:
- Aonde podemos ir?
-Grécia! – exclama Martin animadamente – Lá estaremos salvos da igreja e com esses livros... Com esses livros podemos curar muitos males...
(Interrompendo o comentário) – Poderia curar a Praga? – pergunta Cândido.
- Podemos tentar, eu tenho fé que conseguiremos...
Cândido solta um sorriso de satisfação, é possível que tudo isso venha a salvar muitas vidas, mas uma imagem tira Cândido de seus pensamentos, alguns cavaleiros se aproximam em velocidade da carroça, e antes que Cândido pudesse vestir o fato novamente, eles o abordam.
Im nomine patris, Miserere nobis.
Cândido ao ver os homens da igreja a sua frente, alguns deles se armando, pensa em dialogar, mas ao lembrar de tudo o que viu até naquele momento, de nada iria adiantar, e é notável que aqueles quatro soldados que acompanhavam o padre eram recrutas, sim, ele poderia ter uma chance.
- O meu Deus, eles nos pegaram Cândido, e agora, Pai amado, me proteja dessa situação...
- CALE-SE! – Exclama Cândido, nesse momento, um dos soldados desce do cavalo, e com espada em punho se aproxima da carroça, Cândido em uma ação de extrema eficiência, saca a sua espada, pula da carroça com um golpe vertical, que acerta precisamente o crânio do jovem soldado, que cai ao chão em um borbulhar de sangue.
Nesse momento, o padre recua, diz aos soldados que o matem, pois aquele blasfemador só poderia ter um pacto com o demônio para agira daquele modo.
Ao ouvir isso, Cândido exclama:
- Não é pacto com ninguém senhor, é treinamento militar, seus recrutas não têm chances, nos deixem partir que ninguém sofrerá.
Mas é em vão, mais um dos soldados parte em direção a Cândido, e com um golpe aberto o ataca golpe que fora facilmente aparado por Cândido, que por sua vez enterra a espada até o estomago do jovem, um dos soldados, ao observar Cândido cai ao chão, tenta levantar e não consegue tempo para Cândido partir para cima do outro soldado, mas aquele soldado que se encontrava ao chão, com muita dificuldade retira seu elmo e grita:
- POR FAVOR, PARE PAI!
Como Cândido não reconheceria aquela voz, era de seu primogênito, Caio se encontrava ai, e por pouco Cândido não o matara. Após isso, Cândido solta sua espada ao chão, ele não poderia lutar contra seu próprio filho, isso era demais para ele, e aos prantos e soluços é rendido por outro guarda, assim como Martin. Cândido pergunta a Caio o porquê daquilo, Caio diz ao pai que o mesmo era um pecador, que jogara a família a vergonha...
Cândido, em uma última frase antes de se calar diz:
- Mas isso tudo fora por você...
Após isso, o padre coloca Cândido nas correntes, um dos soldados assume a carroça, colocam Martin nas correntes também, ambos recebem golpes na nuca para perderem a consciência, a ultima visão que Cândido tem naquele momento é de seu filho o observando com os olhos marejados, mostrando-se envergonhado pela situação do pai.
Créditos das imagens: Hibbary e Zianthia ambas imagens extraídas do deviantart








